Tropicalidades

Os prazeres virtuais da vida

sexta-feira, novembro 03, 2006

As memórias do sr. Scargill



A conflitualidade social faz parte integrante das sociedades democráticas. Mais ainda quando estão em causa reformas que afectam situações consolidadas ou expectativas geradas ao longo do tempo. Vem isto a propósito das referências feitas por vários comentadores ao relacionamento do actual Governo com o movimento sindical em geral e com os sindicatos dos professores em particular.
A crer nesses comentários, um elevado índice de tensão entre o poder político e as estruturas sindicais constituiria apanágio de um "governo de direita", sendo, por definição, menos conflitual a relação que se estabeleceria quando a esquerda está no poder.Esta tese não tem exactamente uma demonstração histórica irrefutável.Basta recordar os tempos em que os governos do PS, então liderados por Mário Soares, enfrentaram uma contestação muito acesa por parte dos sindicatos da CGTP.
Tal como basta recordar que durante vários anos as relações do Governo do Partido Socialista Operário Espanhol (para não ir mais longe), então liderado por Felipe González, com as centrais sindicais (inclusive a de inspiração socialista - a UGT) foram particularmente conflituosas, com reflexos mesmo nos alinhamentos internos no respectivo partido.Esses períodos de conflito muito vivo foram ultrapassados com o decurso do tempo, com a prossecução das reformas (que, no caso espanhol, desembocou mesmo num Pacto da Moncloa assinado por patrões e sindicatos com o Governo) e com a superveniente alteração das circunstâncias políticas.Mas se quisermos escolher um exemplo de uma estratégia deliberada de afrontamento com os sindicatos, não apenas centrada no plano de uma luta reivindicativa, mas como mais amplo "jogo de poder", então teremos de ir à década de 80, ao Reino Unido, e recordar o conflito que opôs a então primeira-ministra Margareth Tatcher ao sindicato dos mineiros, liderado pelo célebre Arthur Scargill. Aí sim, encontraremos um exemplo de escola de uma estratégia política que visava "partir a espinha aos sindicatos", com base numa leitura ideológica e de uma acção de confinamento do poder sindical.
A vitória do Governo inglês sobre a estratégia radicalizante dos sindicatos viria a abrir caminho para as políticas liberais dos sucessivos governos conservadores e viria também a criar as condições para que, dentro do próprio Partido Trabalhista britânico, a Confederação dos Sindicatos (TUC) perdesse terreno e peso político (através da abolição do sindicato de voto de que dispunha no Congresso do Labour que lhe permitia determinar a escolha do próprio líder do partido).Se analisarmos o discurso do actual Governo e o significado dos sucessivos afrontamentos com o movimento sindical, não será difícil perceber em qual destas duas tradições se insere o tipo de conflitos sociais actuais.Embora importe reconhecer que a linha que separa o confronto em torno de reformas em concreto de uma demarcação de campos mais profunda, geradora de roturas com efeitos a mais longo prazo, seja por vezes bastante fina.A transposição dessa linha e a passagem do primeiro para o segundo tipo de confrontação não pode, contudo, ser determinada apenas por um dos campos em presença e, para mim, é evidente que o Governo do PS nunca a ultrapassará. Mas o risco de o mero confronto sindical em torno de reformas em concreto passar para um plano essencialmente de combate político, de que poderia resultar, como alguns receiam, o desmantelamento do movimento sindical, só se poderia produzir se os sindicatos consentissem na sua instrumentalização partidária, e assim cometessem o erro de optar pela via da radicalização inconsequente.Por radicalização inconsequente refiro-me à assunção, como postura política, de uma posição intransigente de imobilismo, de rejeição pura e simples da necessidade de reformar o nosso Estado social e de defesa do status quo porque... sim! Um pouco ao estilo "há reforma?... sou contra!".
Assim se coloca o dilema sindical hoje: negar a necessidade de reformas para defender situações adquiridas, ou pretender fazer valer os seus argumentos sobre o conteúdo das reformas, embora aceitando o princípio da sua necessidade. Este dilema só se resolve consoante se dê prevalência apenas à responsabilidade dos sindicatos perante os seus filiados ou à sua responsabilidade perante o conjunto da sociedade enquanto parceiros sociais, que é a melhor forma de defender os interesses legítimos dos seus próprios filiados.A escolha por um ou outro dos caminhos acabará por ter efeitos muito concretos sobre as suas próprias lutas e reivindicações no curto prazo, mas também sobre o rumo do País e o modelo de relações sociais do futuro.Se duvidam leiam atentamente as memórias do sr. Scargill.